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Todo dia ela faz tudo sempre igual

Por Fernanda Alves Chaves

Data de Publicação: 03 de Abril de 2008

Ano passado resolvi tomar coragem e escrevi meu primeiro artigo, intitulado "Gosto de Gente". E este foi o texto de estréia da minha coluna homônima. Foi um período muito bom. Confesso que a visibilidade que o Dicas-L (e que a própria rede permite), nos massageia o ego com mãos vigorosas.

Mas.... (histórias da Carochinha e do João Ratao, sempre tem um mas) coisas ruins aconteceram na minha vida no final do ano passado. Isso me abalou, me entristeceu, tirou alguns centímetros do meu largo sorriso e fez com que eu visse a vida sob sub-perspectivas diferentes. Confesso que este evento me fez viver a margem de mim mesma. Por favor, não pensem que eu comecei a rastejar pelos cantos, amaldiçoando os passarinhos por eles cantarem nas manhãs ensolaradas do insuportávelmente quente verão curitibano. Não foi bem isso. Mas foi quase isso. Heheheh...

Na verdade, por fora as coisas não mudaram muito. Muitas das coisas eu continuei fazendo: continuei trabalhando, lendo e indo ao cinema. O que mudou foi o esforço que eu empregava para realizar essas tarefas. O problema mesmo foram as coisas que eu simplesmente parei de fazer. Parei de cavalgar, parei de visitar minha família, parei de ser tão sociável quanto eu era e, para lamento dos meus leitores, parei de escrever meus artigos no Dicas-L.

Sim, foi uma pena, uma lástima, um desperdício, mas foi verdade. O que aconteceu foi exatamente isso. Abandonei a mim mesma por um grande período, e agora, para retomar a Fernanda, me sinto na obrigação de me-auto-explicar- para-mim-mesma e para todos ao meu redor - pois sim, eu sei viver em socidade.

E vou voltar aos meus artigos falando sobre gente. Sobre como as pessoas tentam erroneamente fugir da rotina, mudando seus hábitos. Sim, isso foi o que eu estive fazendo por esse grande período. Tentei fugir da minha antiga rotina abandonando alguns dos meus hábitos. Na minha cabecinha de melão, o fato de eu me afastar das minhas coisas poderia fazer com que tudo mudasse e eu me tornasse outra pessoa. Na verdade, apenas consegui entrar em procrastinação, comecei a empurrar meus dias com a barriga. Éca....

E hoje, o assunto que me moveu até aqui foi a vontade de tirar o limo que cresceu na Coluna Gosto de Gente. Vim pra levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima.


Meu sexagenário dos olhos de topázio canta assim: "Todo dia ela faz tudo sempre igual" - e esta curta frase diz muito sobre nós.

Nós, seres humanos imperfeitos, fazemos tudo sempre igual. E o mais engraçado disso tudo é que ainda tem um pesssoal com a pachorra de gritar aos quatro ventos que não gosta de rotina, que detesta fazer sempre as mesmas coisas. - Vocês, pobres diabinhos, que não gostam de rotina, já perceberam o quão rotineiro é esse discurso?

Dormimos todos os dias, comemos todos os dias, ouvimos música todos os dias e os sortudos ainda fazem sexo todos os dias (Heheh, nos últimos tempos tenho estado muito invejosa destas pessoas). Vai me dizer que fazer todas essas coisas, todos os dias, é ruim!!!! Hábitos nos fortalecem e nos sustentam. A repetição se transforma em rotina, e essas nos dão segurança e embasamento. Tanto na vida pessoal, quanto na vida profissional.

Vira e mexe ouço algum bobão falando assim: "- Pô Fer, vou pra casa pra quê? Pra fazer o mesmo trajeto, pra ouvir as mesmas reclamações dos meus filhos e pra comer a mesma mulher de sempre? Bah... Prefiro ir pro boteco com meus amigos e conhecer gente nova."

Num primeiro momento, dou risada e concordo com o comentário. Mas uma breve análise já me faz pensar no seguinte. - E se esse bobão não tivesse uma casa para ir todos os dias? E se os filhos desse bobão não precisassem dele a ponto de nem mais conversarem com ele? E se ele nem tivesse uma esposa?

Caso ele não tivesse isso, na certa estaria pensando em como é triste não ter uma família e como é dificil a vida de um homem que precisa correr atrás de uma mulher diferente por noite e o quão desagradável é levá-las para quartos de hotel diferentes todos os dias.

Tem também o exemplo daquelas bobonas que falam assim: Que meleca, tenho que acordar todos os dias cedinho para ir trabalhar e fazer as mesmas tarefas. Não muda nunca, é sempre a mesma coisa. Acordar cedo, pegar o ônibus no mesmo horário, com as mesmas pessoas e ir pra mesma empresa.

Desta bobona penso a mesma coisa, imagino o quão divertido deve ser pegar ônibus diferentes, em horários diferentes, com pessoas diferentes, para procurar um emprego diferente por dia.

O importante é percebermos que não há nada de errados nas nossas rotinas (a não ser que elas estejam nos fazendo mal). E, ao fugir delas ou, ao tentar abandoná-las, podemos iniciar um processo de procrastinação.

Hábitos não são problemas. O problema está em você estar fazendo coisas que não gosta. O problema é quando esquecemos que o espetáculo da vida não esta em fazer coisas diferentes todos os dias, e sim em fazer diferentemente as coisas.

Somos os únicos responsáveis pela manutenção saudável das nossas rotinas. Cabe a nós parar de empurrar nossas vidas com a barriga. Crie novos hábitos a cada dia. Implemente mudanças nas suas rotinas. Reinvente a si próprio. Crie momentos de prazer na sua vida e no seu trabalho, rotineiros.

Sobre a autora

Fernanda Alves Chaves é daquelas pessoas que buscam o que ainda há de humano em um ambiente dominado pela tecnologia. É administradora, especialista em Gestão de Pessoas, profissional de RH e professora universitária. A verdade mesmo é que ela gosta de gente, e é figurinha fácil entre os ambientes dominados por nerds, geeks, etc. Se empenha em ver toda a gente crescer, melhorar, atuar em redes. E, na visão dela, as pessoas começam a formar redes antes de chegarem perto de computadores! As redes se formam de mãos dadas, da troca de olhares, de palavras e... pois bem, também de e-mails, mensagens instantâneas e scraps. Independente dos meios, redes serão sempre de pessoas às quais a tecnologia deve servir, nunca o contrário. É para lembrar disto, sempre, que Fernanda nos brinda com sua coluna no Dicas-L!

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