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O sapo na panela invisível

Por Carlos Nepomuceno

Data de Publicação: 16 de Dezembro de 2008

Ainda sobre o bate-bola que aconteceu na troca com as pessoas que foram na palestra da Amcham ao discutirmos o que muda e o que não muda na Web.

Toda mudança tecnológica, começa com uma inovação técnica, mas vira cultura, ao ficar invisível.

As vans são um bom exemplo.

Substituíram as desconfortáveis Kombis, que chegaram a tentar sem sucesso algo parecido.

As Vans se espalharam na cidade e criaram a cultura alternativa ao transporte de massa.

Acharam seu lugar nas brechas deixadas pelos cartéis dos ônibus, principalmente aqui no Rio de Janeiro.

Hoje, se pega Van.

(Não se pensa na Van enquanto tecnologia.)

É Van para cá e para lá, ponto!

(Um cemitério de kombis - que descansem em paz)

Até tem Kombi que se chama de Van, mas a idéia toda gira em torno dos novos carros mais confortáveis e com preços acessíveis para seus proprietários, que permitiram essa explosão de novas linhas nas cidades.

Assim, é um engano achar, como sempre pensamos, que a Internet e tudo que vem com ela é algo "tecnológico".

É, mas apenas no início.

É isso durante um tempo, mas depois vai chegando, nos enredando, nos envolvendo....

O celular, vejam bem, é uma aparelho tecnológico, certo?

Hoje, ele faz parte de nossas vidas, como os carros, o avião e a batedeira de bolo.

(E olha que o celular só tem 15 anos de estrada!!!!!)

Foi incorporado.

É uma tecnologia absorvida, que se torna, aos poucos, invisível, como se fizesse parte do nosso corpo.

Para uma criança de dez anos a Internet é algo igual a televisão, ou o rádio, ou o celular.

Faz parte da vida de forma invisível.

Apenas, já é.

(Escrevi um artigo há algum tempo sobre essa invisibilidade.)

Desse ponto de vista, podemos pensar que existe um tempo de cada grupo, pessoa, social, do momento em que determinada tecnologia aparece totalmente visível e "incomodante", com a qual criamos atrito e resistimos, até o momento que vai se incorporando, ficando invisível para o conjunto da sociedade e para nós mesmos.

O invisível se torna cultura

Esse tempo entre um estágio e outro é o que podemos chamar de absorção tecnológica, adaptação ao novo, aculturamento de um novo ambiente, como foi com a chegada do telefone, do carro, das motos, do trem, do navio a vapor.

Quando a tecnologia nova passa para a invisibilidade, nos enreda de tal forma que passamos a ter uma nova cultura, que surge em torno do que era antes "apenas tecnologia", que passa a ter seu uso pleno e variado, conforme cada pessoa, grupo, país, empresa, etc....

Essa passagem da visibilidade para a invisibilidade para novas camadas ou plataformas tecnológicas bem absorvidas moldam a sociedade, a partir da nova realidade, alterando para sempre a maneira de nos posicionarmos no mundo.

É dessa invisibilidade inevitável que a Escola, o Governo, as Empresas, toda a sociedade mudará, com um sapo numa panela que sente a água esquentar lentamente, até virar outra coisa, a tal Humanidade 2.0, pós chegada da Internet, dentro de um novo ambiente do conhecimento.

Dito isso, é preciso, então, compreender que a Web é uma tecnologia diferente de uma Van, por exemplo, ou mesmo de um celular.

Há tecnologias que impactam mais ou menos na sociedade.

Se olharmos a história, o livro teve um papel mais amplo nas mudanças sociais, do que o barco a vapor, por exemplo, ou o telescópio, que tiveram também sua importância relativa.

Por quê?

A Web, a fala, a escrita e o livro foram núcleos pelos quais giraram os ambientes de conhecimento da sociedade.

Quando estes núcleos (de tecnologias de informação e comunicação) sofrem mudança a sociedade toda se modifica profundamente ao longo do tempo, pois passamos a produzir informação de uma nova forma e mudamos o jeito de nos relacionarmos entre nós e com o conhecimento.

O parlamento , por exemplo, criado na Revolução Francesa que deu origem a toda a democracia moderna, só foi possível por causa do surgimento do livro e depois dos jornais.

Não era viável na Idade Média com uma população analfabeta, que aprendia apenas pelo ouvido e acreditava que a Biblia em Latim era a expressão de Deus e nela estava escrito que o Rei era o escolhido por Ele para governar na terra, como Jesus.

O livro ajudou na criação da guilhotina, expressão mais violenta para acabar com esse conceito da divindade real.

A guilhotina é filha do livro

Certamente, com a participação efetiva dos cidadãos, via Web, nos parece sem propósito manter a democracia representativa igual a que é hoje, ela vai se alterar, quer os parlamentares queiram ou não queiram.

Foi assim, será assim. É uma questão de tempo.

Se não compreendermos esse processo de mudanças tecnológicas que viram cultura. E a dimensão que a Web tem e terá em nossas vidas, dificilmente podemos pensar em estratégias para o futuro.

Não são assim, isoladamente nem os informáticos, nem os comunicólogos, os administradores, os educadores, nem o designers que vão dar conta da adaptação das instituições para esse novo ambiente que agora ganha força.

São todos eles, juntos!

É um momento único e especial: da passagem da produção do conhecimento vertical para a horizontal e da produção individual e escondida para a da coletiva e colaborativa.

É um esforço grande, que precisa de uma larga visão de para onde realmente a banda está tocando.

Quem perceber a dimensão sai na frente.

Ou como disse um estudioso da chegada do livro:

"Quem sabia ler ficou com as melhores terras".

Assim, quem souber se adaptar mais rapidamente ao novo ambiente, como o Google já fez, terá as ações mais valorizadas na bolsa.

É isso.

Que dizes?

Sobre o autor

Carlos Nepomuceno é Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense é consultor e jornalista especializado em Tecnologia (Informática e Internet), com larga experiência em projetos nestas áreas. Foi um dos primeiros webmasters do Brasil. Atualmente, presta consultoria permanente para as seguintes instituições: Petrobras, IBAM e Sebrae-RJ. É professor do MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/Coppe/UFRJ, com a cadeira "Inteligência Coletiva" e coordenador do ICO - Instituto de Inteligência Coletiva.

É autor, com Marcos Cavalcanti, do livro O Conhecimento em Rede Publicado pela Campus/Elsevier, é o primeiro livro no Brasil a discutir a WEB 2.0, a levantar paradigmas quanto à inteligência coletiva e a mostrar, na prática, como implantar projetos desta natureza. O livro trata desta nova revolução cultural, social e tecnológica a que todos estamos expostos.

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