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Scrum em grande escala #4: Conseguindo mais, com menos - entrevista concedida por Bas Vodde à Softhouse Lean Magazine

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 27 de Janeiro de 2016

A publicação original, de cinco de janeiro de 2016, encontra-se nesse link. A tradução foi feita com a autorização da equipe do LeSS.

"Large-Scale Scrum (LeSS - Scrum em Larga Escala) é um framework que permite a escalação de projetos ágeis com o Scrum." -- tradução adaptada da Wikipedia em inglês.

No princípio, havia a experimentação, o empiricismo e a experiência. Depois, estrutura, padrões e ajustes no sistema. O framework LeSS brotou do solo fértil das histórias de sucesso dos gurus de grandes projetos ágeis: a dupla Bas Vodde e Craig Larman.

Bas Vodde é mentor, consultor, programador, treinador e autor nas áreas relacionadas com o desenvolvimento moderno de produtos de forma ágil e lean. Ele é Holandês mas vive, hoje, em Singapura. Você pode conhecê-lo ainda mais, assim como suas visões sobre o desenvolvimento ágil de software em seu blog.

"Nunca pretendemos criar um framework,", diz Bas Vodde. "Isso pode até soar estranho, mas o Craig e eu gostamos de trabalhar com organizações e equipes na solução de problemas práticos. Ambos acreditamos no empiricismo, ou no controle empírico do processo, no qual as equipes são donas de suas próprias formas de trabalhar, experimentar, aprender e melhorar. Assim, a ideia de um processo, ou mesmo um framework, sempre pareceu contrária ao que nós desejávamos fazer: focar em experimentos que funcionaram dentro de um certo contexto."

De acordo com seus criadores, o LeSS não foi desenvolvido, mas evoluiu. De fato, foi apenas em 2014 que os sócios Bas Vodde e Craig Larman começaram a usar o nome LeSS e criaram as regras do framework. Antes disso, o LeSS não passava de uma coleçã de experiências documentadas -- coisas que eles haviam tentado ao trabalhar com muitos projetos, em grande escala, em grupos de desenvolvimento de produtos. Nesse contexto, eles aprenderam a focar na transparência crescente, reduzindo a sobrecarga operacional e aumentando a propriedade e significado do trabalho das equipes.

Grande parte dessas conclusões podem ser encontradas nos livros Scaling Lean & Product Development (2008) e Practices for Scaling Lean & Agile Development (2010). Depois, porém, de ouvir aos comentários sobre seus livros, Vodde e Larman perceberam que eles também precisavam atender aos leitores que eram novatos no universo da agilidade e escalabilidade, que precisavam de pontos mais claros sobre a forma de começar. Enquanto escrevem seu próximo livro -- Large-Scale Scrum: More with LeSS -- eles tiveram que resolver o conflito entre fornecer mais regras/prescrições e permitir que a propriedade se mantivesse integralmente para as equipes, de forma que elas possam experimentar, aprender e aprimorar dentro de seu próprio contexto. Eles descrevem esse conflito como "o processo como dono do processo ou a equipe como dona de seu próprio processo".

"Quando você entrega muitos processos e guias para as equipes, elas os seguirão sem entender o seu propósito original, sem pensar. Dessa forma, esses processos e guias se tornam inúteis e mesmo perigosos,", diz Bas Vodde. "Assim, de repente, percebemos que o Scrum já tinha resolvido esse conflito ao fornecer um conjunto mínimo de regras. Quando você explora essas regras e reflete sobre elas, você percebe que a maioria delas tem foco em criar uma melhor comunicação (feedback) e garantir a transparência. Isso permite que as equipes se apropriem mais do processo. Nosso conflito estava resolvido!"

Dessa forma, as regras do LeSS foram criadas -- três páginas delas -- para aumentar a transparência e a propriedade, em escala. "Essas regras são de fácil entendimento, mas de difícil adoção," diz Bas Vodde. "Elas também tendem a ser disruptivas para as organizações."

De uma perspectiva simplificada, o LeSS consiste de quatro partes:

  1. princípios;
  2. regras;
  3. guias e,
  4. experimentos.

Os experimentos chegaram primeiro, assim como a mentalidade de experimentação, inspeção-adaptação e melhoria contínua, constituindo a real essência do LeSS. As regras descrevem dois frameworks: LeSS básico (duas a oito equipes) e LeSS enorme (mais que oito equipes). Os guias explicam como implementar as regras dentro de diferentes organizações.

Os Dez Princípios estão listados como a primeira parte do LeSS mas, de fato, vieram por último. Eles estão agrupados, agora, em três tipos de princípios. Os primeiros são baseados no Scrum, como "Transparência", "Controle empírico do processo" ou "LeSS é Scrum". O segundo grupo não agrupa, exatamente, princícios, mas sim conjuntos de conhecimento, como o pensamento lean e e sistêmico. O último grupo diz respeito a princípios específicos do LeSS, como "Centrado no cliente", "Foco no produto integral" e "Mais com menos" (More with LeSS).

Bas Vodde fala sobre a diferença entre o LeSS e outros frameworks

Múltiplas equipes Scrum versus o Scrum multi-equipe

Muitos frameworks escaláveis assumem o uso de múltiplas equipes Scrum. A questão chave é: "Como conseguiremos fazer com que muitas equipes ágeis (Scrum) trabalhem em conjunto". O LeSS, em vez disso, assume um Scrum multi-equipe. A questão de escalabilidade que o LeSS busca responder é: "Como podemos aplicar o Scrum quando temos múltiplas equipes?". Isso leva a decisões completamente diferentes sobre como escalar.

Redução versus Escala

Há uma distinção importante entre a redução e a escala. A abordagem tradicional, segura, com relação a processos é oferecer muitos processos e, então, pedir às pessoas que removam o que elas não precisam -- elas reduzem o conjunto de processos de acordo com o que julgam necessário. A abordagem ágil, por outro lado, é a de escalar a partir de um conjunto mínimo de processos, pedindo que as pessoas adicionem apenas o que for, de fato, necessário.

E porque a redução é tão perigosa? Bem, a maior parte das decisões de redução é feita no início de um projeto. Nesse momento, o conhecimento detalhado sobre o produto, seu mercado ou a metodologia de desenvolvimento é muito pequeno e as pessoas tendem a tomar decisões seguras, visando manter mais papéis, processos e artefatos do que os efetivamente necessários.

Mais ou menos "ágil"

O LeSS evita o enfraquecimento dos valores e princípios ágeis ao escalar, lidando com mais complexidade e organizações tradicionais. Nós ainda queremos incrementos entregáveis do produto a cada iteração. Ainda queremos ser capazes de mudar de direção a qualquer momento. Ainda queremos a comunicação face-a-face e a cooperação próxima com nossos clientes. Ainda queremos empoderar equipes que se auto organizam e arquitetura e design emergentes. Alguns dos frameworks para a escalabilidade relaxam os valores e princípios ágeis, outros não. O LeSS está do lado dos que não relaxam.

Anos de experiência com escalabilidade

O LeSS existe há muito tempo. As regras, guias e o nome são novos, mas eles têm por base mais de uma década de experimentos com o desenvolvimento ágil em larga escala, em diferentes empresas, na construção de uma grande variedade de produtos.

"As regras básicas do LeSS explicam como aplicar o Scrum para múltiplas equipes, esclarecendo como os papéis, eventos e artefatos escalam", diz Bas Vodde. "LeSS -- diferente do Scrum -- também possui regras para a estrutura da organização. O Craig e eu observamos muitas vezes que, caso a organização não seja afetada, a adoção do Scrum/LeSS será muito fraca ou até falhará. Dessa forma, adicionamos várias regras estruturais, como equipes no mesmo local físico, dedicadas, na sua maior parte voltadas à funcionalidades e ScrumMasters em tempo integral."

De acordo com Bas Vodde, a força do LeSS é a de que ele oferece uma abordagem minimalista ao ser um framework para a escalabilidade. Ele não inclui nenhuma complexidade desnecessária. Antes disso, ele é tão pequeno, flexível, ágil e enxuto quanto possível.

"Frequentemente dizemos que o LeSS é para escalar o desenvolvimento e reduzir a organização. Isso parece uma contradição, mas não é. O LeSS aumenta, dramaticamente, a responsabilidade da equipe, levando-a a papéis, processos e artefatos menos tradicionais. Isso leva a estruturas organizacionais mais simples".

A beleza dessa redução organizacional é a de que ela leva a menos complexidade, com menos papéis, menos artefatos e menos processos.

"Isso resulta em mais responsabilidade para as equipes, trabalho mais pensado, com mais significado, mais propriedade, paixão e melhoria", diz Bas Vodde. "Mais resultados. Por essa razão, o princípio fundamental é enunciado assim: Mais com menos! (More with LeSS)"

Leia mais

Dois livros sobre o LeSS estão disponíveis atualmente: Scaling Lean and Agile Development e Practices for Scaling Lean and Agile Development -- ambos escritos por Bas Vodde e Craig Larman. O terceiro livro da dupla, Large-Scale Scrum: More with LeSS, será publicado no próximo ano

Na web, o ponto de encontro é o site less.works, onde dois programas de certificação e treinamento são oferecidos: Certified LeSS Practitioner e Certified LeSS for Executives.

Mais artigos sobre Scrum em grande escala aqui no Dicas-L.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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