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Scrum em grande escala #3: como manter a simplicidade em grande escala, uma entrevista com Craig Larman

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 24 de Janeiro de 2016

Quem trabalha com métodos ágeis em projetos de grande escala, especialmente envolvendo Scrum, já ouviu falar de Craig Larman. Quem não ouviu, certamente vai ouvir. Pedi ao Craig a permissão para traduzir, para o português, algumas de suas entrevistas e artigos e ele, prontamente, me atendeu. Então, segue aqui uma entrevista concedida por Craig ao portal Citerus.SE no dia sete de setembro de 2015, cujo original está disponível nesse link.

Craig Larman passou a última década auxiliando grandes organizações a mudar a forma de abordagem ao desenvolvimento de software em grande escala. Junto com seu colega Bas Vodde, Craig desenvolveu um framework, que toma como base o Scrum, chamado LeSS. Enquanto outros prometem soluções de pacote, Craig oferece trabalho duro e uma mentalidade nova e experimental, baseada e, profundos princípios de agilidade e processos lean.

Vamos começar com o nome de seu framework, LeSS. O que isso significa?

LeSS é um acrônimo para Large-Scale Scrum (Scrum em Larga Escala). Frequentemente, recomendo às pessoas que, caso elas desejem entender as ideias principais de alguma prática ou sistema de pensamento, elas devem começar por analisar o seu nome, examinando as razões pelas quais seu criador escolheu tal nome. Por que Scrum é chamado de Scrum? Porque métodos ágeis são assim chamados? De maneira similar, as mesmas perguntas devem ser feitas com relação ao LeSS.

Inicialmente, espero que o entendimento do nome Large-Scale Scrum se inicie com o entendimento do Scrum, de acordo com a sua definição padrão para uma equipe, e suas ideias basilares como:

  • (1) um processo empírico e não a receita de um processo a ser seguido;
  • (2) uma equipe interdisciplinar, de fato, que, em conjunto, faz tudo o que é necessário (da análise da experiência do usuário ao teste do modelo de interface com humanos, passando pela arquitetura e documentação, sem a necessidade de outras equipes);
  • (3) essa mesma equipe é composta de trabalhadores multifuncionais e não especialistas com funções únicas e,
  • (4) a equipe segue a orientação de um dono do produto que domina o negócio e é responsável pelo retorno de seu investimento (ou seja, aquele que encabeça a gestão do produto) e não a de um gestor de projetos de TI ou analista de negócios.

A partir dessa compreensão, a adoção do LeSS exige que examinemos o propósito dos elementos de uma equipe Scrum e a descoberta de como atingir os mesmos propósitos no contexto de muitas equipes, mantendo-se dentro dos limites das regras padrão do Scrum. A razão disso não é a adoção "religiosa" do Scrum, mas o fato de que as regras do Scrum criam o contexto para a transparência, o controle empírico do processo, a otimização do sistema e a mudança estrutural.

Por exemplo, no LeSS, com múltiplas equipes, já apenas um Product Owner, um Product Backlog e um Sprint que se encerra com um elemento entregável e, idealmente, um produto pronto a cada Sprint. As equipes são donas dos processos e são elas que os evoluem (não são os processos e práticas que são impostos às equipes). Exatamente como o Scrum para uma equipe.

Em segundo lugar, o outro elemento do nome LeSS é... less (menos). Antes de impor um conjunto grande e complexo de processos, estruturas, papéis e artefatos para um grupo, nós queremos manter as coisas muito simples. A ideia é a de que o LeSS defina uma "metodologia minimamente suficiente" (uma ideia-chave no surgimento dos métodos ágeis) para permitir que um grupo escale, permitindo que existam entregáveis a cada Sprint e permitindo a transparência e o controle empírico do processo. Defendemos fortemente que um grupo deve escalar um framework simples a partir de elementos simples, nunca tentando "resumir" o processo de um framework complexo.

O slogan do LeSS é more with LeSS (mais com menos). Em resumo, mais aprendizagem e adaptação, menos obediência à regras e conformidades. Mais valor, menos burocracia. E assim por diante.

Um terceiro ponto com relação ao nome "less" é, ironicamente, reverter a escala de tamanho da organização. Em outras palavras, o LeSS não é uma tentativa de "habilitar" uma organização estranhamente grande a "ser ágil". Em vez disso, assim como o Scrum, ele expõe elementos do modelo organizacional que são desnecessários e inaptos, movendo a organização para um modelo mais simples, menos complexo.

Quem usa o LeSS hoje, e como eles estão indo?

Primeiramente, o site less.works tem uma página de estudos de caso, ainda que ela seja uma representação minúscula dos grupos, ao redor do mundo, que adotaram o LeSS desde há mais de dez anos. Com alguma regularidade, recebemos um e-mail de alguém, em uma empresa, que diz "Olá! Nós lemos o seu livro de 2008 sobre LeSS, Scaling Lean & Agile Development: Thinking & Organizational Tools with LeSS, e mudamos a nossa organização para um modelo LeSS. Funcionou bem! Obrigado!". Assim, com certeza há muitas outras adoções sobre as quais nunca ouvimos falar.

Se você pergunta "quem usa LeSS" querendo saber quais os tipos de indústrias que o adotam, isso varia amplamente. Por exemplo, os estudos de caso incluem as áreas de saúde, serviços financeiros e comércio, equipamentos de telecomunicação, jogos online, gestão de remessas e recebimentos em portos e sistemas de radar.

Mais perto de casa, para os suecos, há vários casos de adoção do LeSS na Ericsson. Há um estudo de caso específico sobre um deles. Nos últimos anos, eu proferi várias palestras relativas ao LeSS em conferências internas na Ericsson, em apoio a suas adoções. Como faz algum tempo que não tenho trabalhado junto com eles, não sei como as coisas estão indo, de fato, mas ouvi que o grupo de produto da Ericsson chamado "Media Gateway for Mobile Networks", que adotou o LeSS, está indo muito bem.

Dito isto, eu gostaria de expor um engano muito comum: Scrum, e LeSS, não são soluções que criam sucesso. Eles são, sim, frameworks para a transparência (e controle empírico do processo) que, de forma poderosa e rápida, expõem fraquezas e problemas profundos. Desta maneira, o grupo deve abordar essas fraquezas e se adaptar. Muitos grupos afirmam que desejam a transparência, mas quando ela se realiza, de forma real e dolorosa, pela introdução do Scrum de verdade, ela desafia tanto o status quo ou é tão embaraçosa para as forças do status quo que passa a existir uma reação voltada à "personalização" do framework para que ele "se adeque a nosso ambiente". Isso significa, essencialmente, "não queremos expor nossas fraquezas e nem mudar o status quo". Uma adoção real, de sucesso do LeSS, faz com que a organização seja reduzida para um sistema muito mais simples. Isso é bastante disruptivo para o atual modelo organizacional. Assim, para o status quo, uma adoção de "sucesso" do LeSS é aquela em que o LeSS é modificado de forma a que nada significativo aconteça.

Como você explica o diferencial do LeSS para quem está considerando aprender mais sobre a agilidade em grande escala?

O Scrum em Larga Escala (LeSS) é um framework simples e de alto impact, modelado para todo o sistema, para a escalabilidade de processos lean e desenvolvimento ágil. Ele está embasado em mais de uma década de adoções em muitos grupos grandes ao redor do mundo (como pode ser visto nos estudos de caso). Além de aprender sobre ele em nosso site less.works, ele é descrito nos três livros dobre LeSS que derivam de uma década de experiência:

  • (1) Scaling Lean & Agile Development: Thinking & Organizational Tools with LeSS;
  • (2) Practices for Scaling Lean & Agile Development: Large, Multisite, & Offshore Development with LeSS, e
  • (3) o livro que está para ser lançado, More with LeSS.

Mesmo que o LeSS seja descrito para a escala, um propósito-chave do LeSS -- e a implicação de seu nome -- é, de fato, a redução da escala, do tamanho da organização, através de sua simplificação. Estamos falando da diminuição do número de papéis, estruturas organizacionais, dependências, complexidade arquitetural, gerentes, locais e pessoas. O LeSS não serve para "habilitar" uma organização existente, grande e desajeitada a se tornar "ágil" simplesmente pintando o nome "ágil" em sua fachada. Ele serve para escalar o próprio e simples framework Scrum para atingir a redução da organização.

De certa maneira, o LeSS é simples porque ele é composto de um pequeno conjunto de elementos, cujo propósito é a transparência e o controle empírico do processo. Ele é difícil porque a transparência expõe fraquezas e o empiricismo requer aprendizagem e adaptação, em vez de seguir uma receita.

Diferentemente de outros frameworks para a escala, o LeSS não define uma receita detalhada, de tamanho único e, como o Scrum, ele é baseado no reconhecimento de que o desenvolvimento é muito complexo e situacional para uma prescrição detalhada que um grupo possa simplesmente "comprar e instalar". Antes, ele requer a criação de uma organização que aprenda e muitas situações de adaptação.

Não há cargos com nomes bonitos, preparações, níveis de gestão. Mas quando você simplifica e reduz, você será capaz de atingir mais impacto e flexibilidade com menos, com o LeSS.

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Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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