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Repensando o Scrum Bunda - parte 1

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 26 de Novembro de 2013

No capítulo 7 de meu livro Scrum, Guia Prático para Projetos Ágeis, falo sobre os cheiros do Scrum: coisas que você deve observar para saber se o seu Scrum não está apodrecendo. É neste capítulo que falo sobre o Scrum Bunda, ou o Scrum Butt. A expressão origina-se da frase em inglês "I do Scrum, but...", ou seja, eu faço Scrum, mas...

A questão é que há empresas e grupos de projetos que, ao assistir a uma palestra sobre Scrum ou acatar as ideias de um entusiasta que acaba de ler um livro sobre o assunto, contentam-se com um aumento marginal de produtividade e não mais aprimoram, exploram ou sequer mantém a constância no uso das práticas e artefatos do Scrum.

Recentemente, palestrei sobre este tema na décima edição da Latinoware. Propositalmente, reduzi o tempo de minha palestra para 40 minutos, permitindo 20 minutos de interação com a plateia. As pessoas estão muito mais antenadas, hoje, sobre o Scrum e métodos ágeis, do que quando comecei a falar sobre o assunto, com minha própria equipe, ainda no início deste século. Há muitos e ótimos eventos que trabalham, exclusivamente, estes assuntos. Estou pensando seriamente, em um próximo evento para o qual eu for convidado, usar um crachá com a frase: "Quer falar sobre Scrum? Pergunte-me algo!".

A partir das sessões de perguntas e respostas, logo após as palestras, é que comecei a repensar o Scrum Bunda. Afinal, no fim das contas, é melhor um Scrum Bunda do que nenhum tipo de Scrum e uma empresa que simplesmente considerou o uso do Scrum é porque tem algum nível de preocupação com a melhoria de seus processos e ganho de produtividade. Já temos algo, em comum, sobre o que conversar.

O que percebo na minha prática com equipes e empresas é que não chega a existir um desentendimento sobre os papéis e artefatos básicos do Scrum, mas dificuldades de medidas de produtividade e o efetivo apoio dos níveis estratégicos mais altos da empresa. Uma boa tática é tentar relacionar as duas coisas: conseguir o apoio da alta gestão através da comprovação de que o Scrum aumenta a produtividade e da prova de que esse aumento pode ser contínuo. Agora, como fazer isso?

A resposta depende do estágio em que sua equipe ou empresa estão na adoção do Scrum, das pessoas envolvidas e o que você consegue obter de indicadores mensuráveis. Mais do que tudo isso, depende da vontade real de, no mínimo, uma pessoa que acredita no Scrum e esteja disposta a levar a cabo algumas tarefas. Este será um trabalho para a melhoria de sua qualidade de vida.

A primeira coisa é saber em que nível de Scrum você está, entre o totalmente bunda e o totalmente top. Para isso, comece pelo Scrum Butt Test. A seguir, você deve ser capaz de estabelecer a relação entre a melhoria de seu desempenho neste teste e a melhoria de indicadores que sejam facilmente visíveis para os gestores estratégicos de sua empresa. Se a sua empresa já possui alguma forma de planejamento estratégico, tanto melhor: baseie-se nele para identificar quais os indicadores, relacionados a objetivos estratégicos, que podem ser diretamente influenciados pela prática do Scrum. Caso contrário, gestores tipicamente gostam de ver melhoria em resultados financeiros, mas é justamente neste aspecto que aqueles que buscam o apoio "de cima" morrem na praia.

É óbvio que a prática do Scrum melhorará os resultados financeiros da empresa, mas isso dificilmente é verificado de forma direta - com exceção de empresas que trabalham puramente com o desenvolvimento de software e já tenham boas métricas estabelecidas e, em muitos casos, nem elas.

Basta uma conversa de poucas horas, de preferência com o apoio de algum praticante mais experiente do Scrum e usando um simples mapa mental, para identificar alguns poucos e bons indicadores. Pense sempre que você quer melhorar a prática do Scrum para tornar o mais agradável quanto possível a experiência do usuário final de qualquer que seja a coisa que você está desenvolvendo. Essa coisa pode ser um produto palpável, um aplicativo para celular, um portal na web ou um processo de suporte pós-venda. O exercício com um produto charmoso, mas completamente fora da linha de qualquer coisa que a empresa produza, pode servir para quebrar o gelo em conversas assim. Eu gosto de fazer esse exercício com os produtos do Grand Street.

Lembre-se também que a economia de recursos traduz-se no aumento da receita bruta da empresa. O Scrum, ao melhorar a qualidade das entregas, evita desperdícios materiais e de recursos humanos. Pense em indicadores como a quantidade de horas resolvendo problemas de clientes, efetivamente consertando produtos ou reescrevendo linhas de código. No início, é melhor identificar (ou criar) indicadores que meçam coisas que possam ser traduzidas, posteriormente e pelos próprios gestores, em valores financeiros. Claro, se você for um gestor e tiver um indicador financeiro que pode associar diretamente com a melhoria da nota no Scrum Butt Test, tanto melhor.

Com os indicadores identificados (não exagere no número deles, algo entre um e quatro já está bom), revise os itens do Scrum Butt Test e veja quais os que, na prática, você pode melhorar rápida e imediatamente. Há um item que não está explícito no teste mas que é extremamente importante! A reunião diária da equipe.

Na reunião diária, você já sabe, todos respondem a três perguntas:

  1. O que você fez ontem?
  2. O que você vai fazer hoje?
  3. Quais são os obstáculos em seu caminho?

Estas três perguntas, todos os dias, expõem a evolução do trabalho a todos e, fundamentalmente, ajudam na criação da unidade conceitual daquilo que está sendo desenvolvido, seja o que for.

Se a reunião diária não está acontecendo, então o seu Scrum está no nível muito bunda mesmo.

No próximo artigo falarei sobre algumas ferramentas que ajudam a deixar o Scrum mais atraente para todos os envolvidos, facilitando a busca do apoio dos gestores e, claro, um ambiente de trabalho prazeroso.

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Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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