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Navegar é preciso!

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 24 de Outubro de 2013

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa (1888 - 1935)

O poeta português Fernando Pessoa já entendia de remixagem. Assumidamente disse que queria para si a frase "Navegar é preciso; viver não é preciso", proferida por navegadores antigos. Ele a retirou de um registro de do poeta italiano Francesco Petrarca (1304 - 1374) que, por sua vez, a reciclou do romano Plutarco (46 - 122) que a usou na biografia que escreveu de Pompeu, o Grande (106 A.C - 48 A.C). A frase original em latim é "Navigare necesse; vivere non est necesse". Assim, ao menos em princípio o "preciso" da frase vem de "necessário" e não de "exato", como alguns podem argumentar.

Independente dos mares navegados - e hoje nosso mar maior é a internet! - a milenar frase "Navegar é preciso; viver não é preciso" nos dá a desculpa para longas horas na frente do computador, na tela de um navegador (que nome mais apropriado!).

Tenho usado meu espaço no Dicas-L para amplas divagações. Ainda que meus textos tenham, em sua maioria, algum aspecto técnico, estratégico ou gerencial, dou-me o luxo de postar aqui textos de pura fantasia e ficção junto a crônicas absolutamente mundanas. O espaço virtual é um meio de aproximação de pessoas. Os eventos de tecnologia comprovam isso. Parece que temos uma certa ânsia em colocar rostos em emails, transformar Likes em abraços e beijos, o texto frio em uma voz amiga. Uma das coisas mais bacanas que aconteceu comigo foi autografar uma impressão muito bem cuidada da história de ficção científica que escrevi para o Dicas-L durante a edição de 2012 da Latinoware. Fiquei tão emocionado que não lembro o nome do rapaz que pediu-me o autógrafo.

No dia 8 de outubro deste ano publiquei, aqui em minha coluna, o texto Poliândrica. Este texto nasceu, quase pronto, no intervalo de um papo com o Professor Marcos Vieira, quando nossa conversa foi interrompida pelo embarque do vôo que nos levaria a Maceió, onde ambos participaríamos do Coalti. Falávamos sobre a forma pela qual o espírito empreendedor brasileiro foi massacrado pela indústria multinacional (o que, por si, daria uma série de artigos) e da importância do exercício criativo ilimitado e sem barreiras. Comecei a imaginar um mundo distante onde os princípios morais estivessem absurdamente calcados em um instinto coletivo de melhoria e preservação de uma espécie humana que evoluiu longe da nossa, na vida em colméias e em hábitos alimentares de certos insetos e aracnídeos. Fiz um recorte da vida nesse mundo: os dias férteis de uma mulher e a narrativa de um dos homens competindo por um descendente.

Passados alguns dias, o Rubens encaminhou-me o email do Mateus Mendes, do CentroVegetariano.Org, que reproduzo com sua autorização:

  Caro Rubens,
  
  Penso que o colunista Cesar Brod não precisará de ser internado. Basta que
  alguém lhe explique que nem todo o pó branco é farinha de trigo e que nem
  todos os líquidos transparentes são água.
  
  O pó branco que faz rir não é definitivamente farinha de trigo, e o líquido
  transparente que arde na garganta não é definitivamente água.
  
  Mas se alguém o internar, por favor deixe-o usar o computador e a Internet,
  senão vamos todos sentir falta das excelentes crónicas dele!
  
  Em todo o caso eu, vegetariano e pacifista, é que não sei se lhe posso
  perdoar uma crónica como a da Poliândrica.
  
  Especialmente para o César, uma visão menos violenta do universo
  
  O e-mail segue com o texto "Ser de Luz", uma revisão (se é que posso ousar
  chamar assim, já que o texto, mesmo paradoxal ao que escrevi, possui uma
  vida completamente própria). Transcrevo-o abaixo:

Ser de Luz

Agito-me, banho-me, enrolo-me nestes deliciosos raios de luz. Deliciosos. Contemplo a imensidão do espaço à minha volta. Saudade. Esta estrela, esta imensidão, tudo me faz lembrar Kitu. Tudo é Kitu, o companheiro, o amante que ainda há pouco me abraçou, o amor que fizemos, aqui neste espaço tão vazio. E agora só eu aqui. O universo sou eu. Só. A energia que absorvo, esta luz que bebo, a minha consciência. O poder sobre toda a matéria está em mim.

Bebo mais um travo da luz desta estrela e lanço-me no vazio. Em busca da estrela criada quando nasci. Contou-me um desconhecido que nessa estrela há agora um sistema solar. Com vários planetas. E que num desses planetas existe uma estranha forma de vida. Chamam Terra a esse planeta, os seus insólitos habitantes. Habitantes que são matéria, água quase tudo. São sacos de água mantidos num precário equilíbrio por um aglomerado de minerais. Há quem diga que foi assim que nós também começámos. Ainda temos os mesmos impulsos básicos de conhecer e de amar. Mas esses primitivos seres nada mais têm agora em comum connosco. De energia só têm a sua própria consciência e fantasias. Tudo o resto é material. E vivem, na sua primitiva busca do equilíbrio, extraindo energia da matéria, num processo altamente ineficiente de digestão. Matam-se por matéria e até por amor. Reproduzem-se duma forma estranha, copulam e muito tempo depois pequenos seres nascem no ventre das fêmeas e de lá são arrancados, por vezes à força, para recomeçar sempre o primitivo ciclo de busca do precário equilíbrio que os mantém vivos. E são milhões, estes seres, que ocupam a Terra. Estranhamente também, fazem-no com algum sucesso. Constroem agora máquinas à sua semelhança. Sei que um dia irão construir uma máquina suficientemente poderosa para conseguirem transferir a sua consciência para ela.

Continuarão dessa forma a existir, não no precário corpo de água que se constrói e destrói a cada dia, mas numa máquina muito mais eficaz. Será esse o primeiro passo para se tornarem seres de energia como nós. Pura energia, estádio último da evolução.

Chego agora à estrela que chamam Sol, o efeito colateral do meu nascimento. Foi esta estrela que nasceu como subproduto do orgasmo que me deu origem. Curiosa e bela, esta forma de nos reproduzirmos. Nós que somos energia pura, e com o nascimento de um de nós surge também um montão de matéria, que depois continua a gerar energia, da qual nos alimentamos.

Aproximo-me do Sol, banho-me na sua luz, absorvo-a, restabeleço-me, cresço. Tudo me é familiar nesta estrela. Foi aqui que nasci e é como se sempre aqui tivesse vivido.

Olho a Terra ao longe e vejo aqueles seres minúsculos, que um dia poderão muito bem ser como eu. Na azáfama de ser alimentarem, de se reproduzirem. Sei que não duram mais do que 100 órbitas da Terra à volta do Sol. E tudo ali é morte, mas também renascimento e amor.

Que saudades de Kitu. O abraço fraterno, a ressonância das frequências. A troca de energia, o desejo profundo que faz eco no infinito. Que saudades do último abraço, em que um pouco mais e sei que explodiríamos, no orgasmo primordial, criador, que gera as estrelas e outros como nós. Mas não, não estávamos preparados ainda no abraço de Andrómeda. Kitu seguiu pelo vazio, em direção às Plêiades. E eu segui o meu instinto de regressar às origens. E ambos sabemos que havemos de errar até ao fim, pelo universo, em busca um do outro.

A radiação de fundo diz-me que Kitu está nas Plêiades. Olho a Terra ao longe e os millhões de danças de amor e morte. Bebo mais um travo de sol e parto. Em direção às Plêiades.


Mateus conclui:

  Escrevi o texto mesmo como brincadeira para você e o Rubens. Sigo o Dicas-L
  há tantos anos que é como se vocês fossem velhos amigos para mim.
  
  Não está publicado, só mandei mesmo para vocês - era um brinde aos amigos
  do outro lado do mar (sou Português).

Mateus, um abraço transatlântico e navegador pra ti e obrigado por permitir compartilhar com o mundo nossa nova e crescente amizade!

Um beijo pra Gutcha Ramil das Três Marias, que tive a oportunidade de rever, depois de muito tempo, na escala no aeroporto do Galeão, antes de seguir para Maceió.

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Poliândrica

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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