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A liberdade é saudável?

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 28 de Março de 2011

Em 1851 o médico americano Samuel A. Cartwright descreveu a drapetomania, uma doença mental da qual acometiam-se os escravos e cujo principal sintoma era o seu desejo de liberdade. Uma das causas diagnosticadas para esta doença era o hábito de alguns donos de escravos em tratá-los como iguais. Segundo o médico:

"Se um ou mais escravos, em qualquer momento, mostram-se inclinados a levantar sua cabeça acima de seu mestre, é para o seu próprio bem que eles devem ser punidos até que retornem ao estado submisso que devem ocupar. Este é o único estado em que devem ser mantidos e tratados como crianças para prevenir e curá-los da vontade de fugir."

Descobri isto enquanto pesquisava material para enriquecer minha apresentação na próxima edição do IWEEE, o seminário internacional de saúde eletrônica para países emergentes, onde também estarei trabalhando como voluntário no estande do GNU Solidário.

Conheço pouco da área da saúde e da tecnologia a ela aplicada. O que sei vem das minhas participações anteriores no IWEEE, das conversas com minha filha que está cursando medicina e da minha tendência à hipocondria, que me faz um paciente do Dr. Google. Meu papel nas outras edições do evento foi muito mais relacionado à viabilidade do desenvolvimento de soluções em software livre em um aspecto mais amplo e o direcionamento para a área da saúde era dado pelos demais palestrantes.

Em muitas vezes que falei sobre software livre acabei preso na armadilha da discussão do próprio conceito de liberdade, até encontrar a definição de Cecília Meireles, que é, para mim, a melhor:

"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há quem explique e ninguém que não entenda"

Eu senti que precisava de uma definição de saúde que fosse tão simples, ampla e forte quanto esta. Um texto de 2007 do médico e imortal Moacyr Scliar deu-me uma pista:

"O conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas."

Em 1948 a ONU e a OMS definiram saúde como "o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade". E como, segundo Scliar, a saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas, ouso dizer que para mim - e para muitas pessoas que eu conheço - meu completo bem estar físico, mental e social depende, dentre outras coisas, do meu conforto e, em especial, de minha liberdade.

Minha mãe ensinou-me que minha liberdade acaba quando começa a de meu próximo. Isto significa que a liberdade, antes de ser somente um sentimento individual, é algo - é o "sonho humano" - que devemos alimentar como comunidade. Minha família, meus amigos, minha vila, todos devem usufruir de seu bem-estar completo, vivendo o que é o seu sonho de liberdade. Nosso valor maior deveria ser, justamente, a construção conjunta deste sonho. Deveríamos compartilhar sem amarra alguma tudo aquilo que nos faz crescer, viver melhor.

Infelizmente, por uma distorção criada pelo nosso próprio modo de vida, com alguma facilidade privamos a liberdade alheia inventando condições que justifiquem esta ação. Depois, uma estranha mescla de complexo de culpa e sentido de preservação social nos impelem a correções que mais se parecem a arremedos. Escravizamos os negros, demos o nome de uma doença a seu desejo de liberdade e hoje temos sistemas de cotas para permitir que eles entrem com mais facilidade no ensino superior.

Não nos damos conta que seguimos alimentando outras formas de escravidão para garantir sempre a mesma coisa: a produção de bens de consumo e de conforto pelos quais temos que ganhar dinheiro para pagar, produzindo mais bens de consumo e conforto. Por isso, ideias novas e boas, ao invés de serem compartilhadas, são mantidas em segredo. Quanto menos gente é capaz de produzir algo, mais valor este algo tem. Não importa se este algo é um remédio que pode salvar vidas ou uma tecnologia que irá levar conhecimento, informação ou mais capacidade de produção a quem não tem.

E já que tudo tem um preço, alguns podem pagar por isso e outros não podem. Estranhamente, parece que a grande maioria não pode. Governos têm que garantir cestas básicas, condições de saneamento e medicamentos para quem não pode adquiri-los. Isto funciona mais ou menos bem. Quem pode, trabalha em algum lugar mais ou menos bacana, paga um montão de impostos para seu governo, que vai cuidar daqueles que não tiveram acesso à boas escolas, boas condições de moradia, higiene, saúde. Estes que não tiveram condições, especialmente de educação, terão empregos absolutamente necessários para o resto de nós, como a coleta de nosso lixo, a limpeza de nossa sujeira.

Nosso sonho humano de liberdade e nosso completo bem estar físico, mental e social ficam preservados em um monte de palavras bonitas enquanto nos permitimos alimentar um ciclo viciado de achar que o menino que fuma sua pedra de crack para fugir para a sua liberdade imaginária é um doente. Continua sendo mais fácil nomear e isolar uma doença do que assumir, definitivamente, que nossa doença é bem outra.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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