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Democracia, Liberdade e outros animais de distintas espécies

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 22 de Fevereiro de 2011

Este artigo é um da série "dando pitacos onde não fui chamado". É sobre a cizânia semeada na comunidade BrOffice que, em absolutamente nada, irá afetar os usuários da suíte livre de aplicativos para escritórios que faz frente ao popular Office da Microsoft.

Eu acho que fui um dos primeiros a liderar uma implantação em grande escala do StarOffice no Brasil, em 1999, no Centro Universitário Univates. Minha equipe contou com o apoio da reitoria da instituição e montamos treinamentos para professores, funcionários e alunos, a fim de facilitar a adoção da ferramenta que, no ano seguinte, seria adquirida pela Sun Microsystems e teria seu código disponibilizado à comunidade, dando origem ao OpenOffice. Cheguei a participar da lista de desenvolvimento do OpenOffice durante o ano 2000 e só saí dela por absoluta falta de tempo em função de uma série de outros compromissos. Muitos lembram que, entre 2000 e 2003 criamos o Sagu, o Gnuteca e o projeto de empreendedorismo que deu origem à Solis.

Uma coisa que aprendi em meu trabalho com software livre é que brigas dentro de comunidades só servem para uma coisa: para os "concorrentes" em software proprietário lavarem a égua em nossa pureza e ingenuidade, para as quais eles dão nomes muito mais feios.

Sempre que alguém fala em criar uma ONG ou uma OSCIP para viabilizar projetos em software livre arrepiam-me os pelos da nuca. Sou da opinião, talvez radical demais, que projetos devem ser econômica e tecnologicamente viáveis e são empresas reais que devem ser responsáveis por eles. Estas empresas podem - e devem - contribuir com código e até dinheiro para os desenvolvedores. Ninguém precisa ser membro de OSCIP para receber dinheiro e uma comunidade não precisa de uma entidade legal para que possa fazer valer seus interesses. Aliás, neste aspecto, eu acho que uma organização cooperativa profissional é muito melhor que uma OSCIP se a questão é receber dinheiro e distribuir entre seus membros e investir em seus projetos. Pra mim, OSCIPs têm um caráter muito mais social do que técnico. Uma OSCIP não deveria desvirtuar-se em fábrica de software ou algo do gênero.

Agora, grandes empresas públicas e privadas vão necessitar, crescentemente, de soluções que envolvam o uso de uma suíte de produtividade que trabalhe com formatos abertos de documentos. Grandes ERPs vão ter que gerar, dinamicamente, documentos e planilhas de cálculos nos padrões Open Document Format. Os executivos destas empresas vão querer apertar o "botão do chefe" e ver gerada, automaticamente, uma apresentação com os resultados fiscais do ano. Governos irão exigir a entrega de dados financeiros e tributários também em formatos abertos. Há muita possibilidade de se investir, criar soluções, ganhar dinheiro. Quem for rápido o suficiente irá aproveitar estas oportunidades.

Enquanto estive na Solis, tivemos infinitas discussões sobre o processo de gestão democrática da cooperativa. Lá pude comprovar que a democracia e a liberdade são dois animais de espécies bem distintas. Muitas vezes a democracia aprisionou a capacidade de crescimento da cooperativa em suas fases iniciais. Assuntos que, em uma empresa com um dono, seriam decididos em um canetaço, levavam infinitas reuniões até que amadurecessem. O Júnior, hoje presidente da Solis, um dia irá contar muitas destas histórias. Júnior, não esquece de contar o monstro que virou a formatação do valor da hora trabalhada! Não sem sofrimento, a Solis evoluiu para uma estrutura de gestão hierárquica que é muito parecida com a de qualquer outra grande empresa, mas que ainda consegue dar espaço à manifestação de todos. Mas, em última instância, se o presidente tiver que decidir algo, ele decide e pronto.

Gosto muito de todo o pessoal do BrOffice. Conheço o Cláudio desde antes dele tornar-se o líder da comunidade. Admiro muito pessoas como o David, o Olivier e muitos outros que não vou citar para não deixar ninguém de fora. Há algumas semanas acompanho, calado, toda esta discussão que acabou descambando em um abaixo assinado rancoroso e mal redigido, mesmo que bem intencionado. Mas, de boas intenções...

Eu apenas torço para que tudo acabe bem e logo! Projetos estão acima de pessoas, de vaidades, de OSCIPs, ONGs. Brigas vão existir porque ninguém tem sangue de barata. Ainda mais na comunidade de software livre. Mas é preciso pensar no bem maior e não ficar dando munição para que aqueles que são contra o software livre possam disparar por aí mais medo, incertezas e dúvidas.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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