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Ficção Científica? #14

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 09 de Fevereiro de 2011

Iran ainda pensava na Terra. Não com saudade. O planeta era seu lar e já havia se conformado com isso há muitos anos. O tempo não era mais um incômodo também. Cultivava o planeta e apreciava a evolução de suas plantas. De tempos em tempos ainda fazia suas expedições de reconhecimento passando muitos dias (não sabia quantos) andando sempre em uma direção aleatória. A cada uma que escolhia encontrava novas surpresas. Não havia mais nenhum local deserto, a vegetação cobria tudo o que alcançava em suas jornadas. Imaginava que todo o planeta estava assim. Por mais longa que fosse a expedição, em certo momento sentia a necessidade de voltar à sua base inicial, onde estavam os destroços da nave convertidos em uma habitação e onde os equipamentos já não mais funcionavam. Usava as lentes de um binóculo analógico para fazer fogo e, na eventualidade de ter que reacender um fogo à noite, o que era raro, ainda tinha quatro dos seis geradores de calor que haviam na nave.

Insetos e novas espécies vegetais já não o surpreendiam, mas o encantavam com sua beleza e a capacidade do planeta em propiciar seu surgimento. Já convivia bem com as mudanças de seu corpo, seus desejos e sonhos. Como tudo o mais que havia vivo no planeta, ele também havia evoluído e se adaptado.

Ao retornar de uma de suas expedições, ao invés de ir para a sua habitação, dirigiu-se, quase sem dar-se conta, a uma caverna que estava completamente escondida pela vegetação. De alguma maneira, sabia da existência dela. Uma luz fraca e azulada iluminavam os equipamentos que deveriam servir como sobressalentes para o suporte a sistemas da nave e seu computador. No centro deles um ser vivo completamente insólito: um cérebro coberto por uma fina camada de pele e pelos, dois olhos grandes e extremamente claros e o que parecia ser uma espinha dorsal com pequenos membros brotando dela, como um anfíbio nos estágios iniciais de sua mutação. Iran ouviu em sua mente o ser conversando com ele: "Olá Iran, já é o momento."

Imediatamente a mente de Iran entrou em um redemoinho, uma espécie de sonho acordado. Suas memórias da viagem, do tempo na nave, da chegada ao planeta, todas voltaram à sua mente. Outras memórias que não pareciam suas misturaram-se a elas, como a cuidadosa montagem da estrutura onde estava o cérebro, agora transformado no ser bizarro à sua frente. De alguma maneira, muita coisa passou a fazer sentido imediato para ele.

"Sim, Iran, guardamos em nosso DNA todo o ciclo de nossa evolução. Neste planeta há algo que favorece nossa adaptação. Você já viu isso. Os pelos que cobrem sua cabeça, seu corpo, as sensações e o desejo que sente. Eu não consigo olhar para mim mesmo, mas consigo ver. Devo ter desenvolvido olhos adaptados a escuridão onde estou. Em breve o suco intravenoso que me alimenta não será mais suficiente. Agora preciso de sua ajuda."

"Nave, quanto tempo passou, desde a aterrissagem"?

"Os sensores com os quais fiquei não me permitem uma precisão absoluta, mas creio que algo perto de 300 anos. E não me chame mais de nave. Meu nome é Reuben."

"Eu lembro de você. Você pertencia à equipe de Freitas. Foi um dos que voltaram ao projeto de Kazinski depois de ter saído após a primeira apresentação. Você não deveria ter mantido a sua identidade."

"Sim. Essa era a ideia. Mas algo fez com que minha memória lentamente se restaurasse. Nossa conexão fez com que eu pudesse ler a sua mente e vasculhar suas próprias memórias. Seu conhecimento e treinamento avançado nas técnicas de Ziembinski foi especialmente útil. Fui capaz de plantar uma individualidade em você, uma espécie de subconjunto de mim mesmo que assumiu o controle de suas ações e permitiu que você preparasse esse lugar para mim."

"Agora eu entendo isso. Mas porque você preferiu selar o compartimento de minha mente com esta individualidade? Porque não contou tudo para mim e permitiu-me que o ajudasse"?

"Eu não tinha ainda o conhecimento do que estava acontecendo comigo, a razão pela qual comecei a recuperar minhas memórias. Posso dizer que estava muito confuso e tinha medo. Mas meu instinto de preservação era imenso. Imaginei que, com o passar do tempo, ambos evoluiríamos de alguma maneira e então confiaríamos um no outro. Ao menos eu imaginava que poderia confiar em você."

"E porque razão você não confiou em mim, logo de início"?

"Você foi bastante ferido no acidente. Tinha uma concussão em seu cérebro e eu não tinha nenhuma maneira de atuar fisicamente em você. Mantive-o em estase por mais de três meses, usando os medicamentos intravenosos do que as nave dispunha, controlando-os diretamente em sua câmara. Eu não tinha como saber, exatamente, em que grau de consciência você estava."

Reuben, excitado pelo encontro depois de tanto tempo, quase completou: "Além do mais, sua mente tinha um compartimento ao qual eu não tinha acesso." E Reuben não sabia se este compartimento era o simples resultado de uma área escondida pela concussão, talvez uma parte morta de seu cérebro, ou se havia ali algo que Iran soubera, de alguma forma, guardar muito bem.

"Como você também já notou, temos uma conexão telepática. Eu a descobri logo após a primeira vez em que permiti que você saísse dos domínios da nave com a individualidade que programei para você. Aquele foi um momento arriscado. Se não funcionasse, eu o perderia para sempre e morreria. No início era uma conexão muito fraca. Depois ela foi substituindo as conexões que tínhamos na nave. Não evoluímos apenas fisicamente, como você vê."

"E você só usou esta conexão porque agora confia em mim"?

"A verdade é que detectei uma presença aproximando-se do planeta. Eu não sei exatamente como, mas sinto que há uma nave aproximando-se. Provavelmente uma equipe de reconhecimento querendo saber o que aconteceu com as naves do projeto original. Eu sinto através do planeta. É como se ele fosse a minha pele, como se eu tivesse um sentido através do próprio planeta. Eu não sei quanto tempo de vida tenho, não sei qual a intenção dos tripulantes da nave nem sua real missão, mas nós temos a nossa. Antes de tomarmos qualquer ação, temos que saber mais coisas. Eu não posso, obviamente, ter nenhuma ação física, mas você sim."

"E o que você espera de mim"?

"No momento, apenas que espere que eles cheguem. Caso a tripulação tenha homens e mulheres, podemos retomar o plano de colonização imediatamente. A sua programação genética e os efeitos deste planeta o tornaram fértil. Com o devido tempo, o mesmo deve acontecer com nossos visitantes. Se este for o caso, você deve engravidar uma mulher. Temos que usar esta criança, o primeiro filho do planeta, para fazermos experiências de conexão com um cérebro novo, ainda a ser escrito. Alguém deve ser capaz de armazenar nossa individualidade e conhecimento e dar sequência à nossa missão."

A conexão telepática entre Iran e Reuben permitia uma compreensão entre os dois que ia muito além das palavras. Mas Reuben ainda não estava certo de poder usar a individualidade de Iran em função do receio que tinha daquela área de sua mente a qual não tinha acesso. No devido momento, decidiria o que fazer.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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