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Contos da Época do Computador à Lenha - 80 Colunas

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 17 de Agosto de 2010

Comecei a achar que meu prazo de validade estava mesmo expirando quando passei a colocar a indicação do século antes das décadas. Eu já tinha sentido que isto aconteceria com o bug do milênio. Mais bits na memória, menos economia, mais especificidade. Nasci nos anos 1960. Sou antigo. Uma pessoa do século passado. Em mais dez anos é que a coisa ficará estranha. O Big Brother Brasil 20 só terá pessoas deste século. A maioridade legal logo será aos 16 ou 14 anos. Todos os carros serão hidramáticos e o filho do Fiuk, o Fiukyu, cantará "Pai" com o pai e o avô dele, o Fábio Júnior no "Criança Esperança".

Quando alguém falava "Ah, meus tempos!" na frente do meu vô Estácio, ele retrucava dizendo: "Teus tempos de quê? Tempo de limpar o cu com sabugo? De fritar a bosta pra comer o torresmo?"

O vô Estácio sabia das coisas. O irmão dele, meu tio-avô Leto, quando pequeno, não queria usar cuecas porque elas "pinicavam". Meu avô resolveu o problema com uma sumanta de pau no moleque, que virou um baita alfaiate! Inconcebível bater em criança hoje! Sei lá, sou das antigas. Acho que a gente também aprende com limites bem definidos e sabiamente aplicados.

Mas sou antigo. A velocidade das coisas já me assustam. No início da minha vida profissional eu editava meus textos e programas em 80 colunas em terminais 3270 da IBM usando o SPF (System Productivity Facility). Depois ele virou ISPF (Interactive SPF) e chegou a ter uma versão para PC. Mesmo assim, 80 caracteres eram o limite por linha. Isto fazia todo o sentido do mundo, já que cartões perfurados que eu usava para transmitir programas de um lado para o outro, pelo correio, tinham 80 colunas. Na verdade, se eu me lembro bem, eram 72 colunas: as oito restantes eram para o número de ordem do cartão. Caso a pilha de cartões fosse embaralhada por alguma puta falta de sacanagem, o número nestas oito colunas ajudava a reordenar o baralho. Havia programas que ajudavam nesta tarefa. Mas algum espertinho resolveu usar as oito colunas restantes para algo mais significativo e a moda pegou. Ainda bem que já tinham inventado o lápis. Assim que os cartões eram perfurados, a sequência deles era anotada, com lápis, pelo estagiário da vez.

Como em um tobogã, os anos passam depressa. Ainda existe tobogã? Que eu lembre, ele evoluiu até a versão do toboágua, mas não sei se foi adiante. Hoje digito meus artigos no Google Docs, que imita o jeitão de uma máquina de escrever, com o texto limitado pelo tamanho da fonte e do papel. Tem até uma régua no topo para lembrar disso. Mas o limite de 80 colunas não existe mais.

Meu primeiro computador foi um MSX, um HotBit da Sharp. Ele tinha como editor de textos MSXWord, que minha mulher usou para entregar um dos primeiros trabalhos de graduação editado em computador na PUC. O MSXWord permitia um máximo de 64 colunas. Um absurdo! Não me contentei até que conseguisse comprar um cartucho de expansão que me desse as desejadas 80 colunas. Eu tinha três cartuchos no MSX: o de 80 colunas, o Macro Assembler (que usei para escrever um programa que permitia usar a impressora ao mesmo tempo em que se podia continuar usando o computador para outras coisas) e o Galaga. Sou tão saudosista que uso uma emulação do MSX para jogar a versão original da Konami, do Galaga, em meu notebook.

Antes disso eu havia programado em Assembler/360 da IBM. Mas programei pouco na minha vida. Sou melhor em achar problemas nos programas dos outros. Mas toda essa antiguidade presenteou-me com muita coisa boa. O respeito à clareza e à concisão e a sabedoria na arbitragem da briga entre elas é uma delas.

Eu, o Rubens Queiroz e o Franklin Carvalho vamos falar um pouco desta época do computador à lenha, e o quanto isto influencia nosso modo de ser e trabalhar hoje, ali na Unicamp, em Campinas, na próxima sexta-feira, 20/08 às 14h. Vou levar um MSX funcionando para sortear entre os presentes, antes que a minha mulher pergunte mais uma vez porque eu ainda guardo essa tralha em casa!

Mais detalhes sobre o evento neste link. Até sexta!

Este será um evento de divulgação da Latinoware 2010

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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