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Ficção Científica? # 7

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 26 de Agosto de 2009

(Leia também os capítulos anteriores)

Iran ainda não tinha a mesma certeza absoluta de Freitas quanto ao sucesso de sua sabotagem. Questionou várias vezes, em algumas abertamente a Freitas, se ele não era um mero peão em um jogo de vaidade científica. Mas devia muito ao velho para sequer pensar em decepcioná-lo. Freitas tomou Iran como protegido desde muito cedo em seus estudos. Alimentou sua curiosidade com dados sobre o passado da Terra, fazendo com que se apaixonasse por um planeta que há muito não existia. Quando Freitas rompeu com Kazinski, ainda no "incidente das sementes", Iran mal começava a destacar-se como um brilhante cientista de aviônica multidimensional. Ele sabia que Vênus seria apenas o primeiro celeiro extraterrestre de Kazinski e seu conhecimento certamente seria de grande valia caso optasse por abandonar seu protetor. A fidelidade a Freitas, porém, rendeu-lhe outros frutos, ainda que só o futuro pudesse permitir-lhe o pleno reconhecimento do valor dos mesmos.

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"Quero que leia estes relatos, são do século 21 e 22"

Iran lia os textos médicos que narravam recuperações fantásticas de pessoas que sofriam acidentes que faziam com que perdessem boa parte de seu cérebro e, mesmo assim, tinham recuperação completa. Em outros relatos, a recuperação da habilidade motora ficava comprometida, mas as faculdades de pensamento eram preservadas e, em alguns casos, até aprimoradas.

"Veja este aqui... Note que, ao não ter mais que cuidar de boa parte do corpo, o cérebro pôde dar-se ao luxo de vôos intelectuais e artísticos impressionantes"

Freitas falava de Itzlav Zienbinski, um humilde artesão de origem polonesa que, ao sofrer um acidente bobo com uma de suas ferramentas diárias de trabalho, uma simples serra elétrica, teve mais de um terço de seu cérebro completamente destruído. Itzlav ficou em coma por vários meses. Quando voltou do coma, estava sem fala e sem os movimentos das pernas e de um de seus braços. Mais alguns meses passaram-se e Itzlav começou a escrever o relato completo do que imaginava estar acontecendo dentro de sua cabeça, assombrando renomados neurocirurgiões que acompanhavam a veracidade do que o paciente escrevia através de tomografias perfeitamente direcionadas por ele mesmo. Itzlav, comunicando-se inicialmente pela escrita pura e, em seguida, com o auxílio de um computador, interagia com os médicos, pedindo-lhes explicações sobre a cura que relatava. Com isto, acompanhando as imagens de seu cérebro, as informações dos médicos e suas próprias sensações do que se passava com seu corpo, Itzlav foi desenvolvendo uma série de neuroexercícios, documentando todos eles.

Os ensinamentos de Itzlav não eram surpresa para Iran, que já havia lido sobre o assunto. A ficha médica e os relatos originais do mesmo, estes sim eram novidade. De garranchos pouco legíveis à evolução para uma escrita clara e depois um texto fluido, quase didático, era impressionante. Um pouco antes do dia de Natal de 2112, Itzlav pediu aos médicos que aplicassem uma corrente elétrica estimulando uma conexão bastante específica na área de Broca, no lobo frontal de seu cérebro. As imagens permitiam a Itzlav mostrar, com precisão micrométrica, os dois pontos que deveriam ser estimulados, mesmo que não houvesse ali nenhuma lesão aparente. O pedido de Itzlav ainda passou por um conselho de ética, mas especialmente em função de tudo o que já se havia aprendido com a sua espantosa recuperação, ele foi atendido. Mal foi aplicada a corrente no local exato recomendado por Izlav, ele falou: "Muito obrigado! De agora em diante, tudo ficará mais fácil..."

De fato, foi assim. Entre seus neroexercícios e a aplicação de estímulos em seu cérebro, Itzlav foi recuperando completamente sua habilidade motora e mesmo aprimorando-a. Tornou-se um fã da música de Paganini e um exímio violinista. Sempre com seu cérebro monitorado através dos mais modernos sistemas de imagens descreveu, junto com neurocirurgiões renomados, todas as formas de interfaces invasivas e não invasivas que passaram a ser aplicadas em muitos cérebros daí em diante. O limite entre a ética e a ciência, mais uma vez, foi abalado. Deixaram de existir crianças com dificuldades de aprendizagem ao mesmo tempo em que pais, com as devidas posses ou influência, tornavam seus filhos, de uma hora para a outra, um virtuoso da flauta, do violino ou do piano. Itzlav passou a escrever artigos sobre os perigos das escolhas forçadas para outros, especialmente para os mais jovens, sobre como a mente molda-se fácil, mas também tem a capacidade de retornar a seu estado natural sem os exercícios apropriados. Porém, era muito tentador, e servia a muitos interesses, "habilitar" determinados talentos naqueles que gostariam de ser artistas, bons políticos, os que queriam ter o controle refinado das habilidades manuais e mesmo os que queriam ter o prazer e a felicidade eterna em sua vida. Nunca deixaram de existir meios, legais ou não, para que todos tivessem aquilo pelo qual estavam dispostos a pagar. Intervenções cerebrais passaram a ser controladas pelos governos, mas não havia nada que uma viagem a um país um pouco mais permissivo não resolvesse. Isto foi antes da unificação do governo na Terra.

Em uma derradeira experiência, Itzlav pediu que acionassem uma conexão entre os dois hemisférios de seu cérebro, mais uma vez em uma região absolutamente específica do corpo caloso. Aplicada a corrente, o cérebro de Itzlav reduziu-se a um emaranhado se sinais elétricos sem sentido algum. Seu rosto ficou sem expressão alguma e assim permaneceu até a sua morte física, com seu corpo sendo preservado ao máximo até que os médicos tentassem entender o que havia acontecido, sem sucesso algum. Até hoje não se sabe se Itzlav teve morte cerebral, se continuou a "viver" dentro de seu próprio cérebro em uma vida alternativa que havia criado ou se simplesmente pregou uma peça em todos. A "experiência Zienbinski", porém, foi a que deu origem a muitas das ideias que permitiram uma série de interfaces diretas com o cérebro, desde as complexas, que permitem o manuseio extremamente rápido de máquinas e computadores sem a necessidade de intervenção física, até mais simples, como novos meios de comunicação em distâncias muito longas.

Um grupo de puristas fez a redução dos ensinamentos de Itzlav aos neuroexercícios, acreditando que o aprimoramento do cérebro, a vivência de sensações, a telepatia, deveriam ser obtidas unicamente com a prática. Outros imaginavam a conexão direta entre as mentes para a construção de computadores bioneurais até então impossíveis.

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"É o momento, meu rapaz! Está pronto?"

"Sim!", disse Iran ao médico que conectaria seu cérebro à nave para o treinamento final antes da viagem. A última coisa que ainda conseguiu pensar é se todo o seu treinamento permitiria que seu cérebro retornasse à forma anterior e em quanto tempo isto aconteceria. Tudo o que queria era poder honrar seu mestre e protetor, Freitas.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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